Sobre a condição humana

Arthur Dapieve

Cris Braun não é uma artista esquecida. Cris Braun não é uma cult da década de 90. Cris Braun continua sendo uma das melhores cantoras e compositoras brasileiras do século XXI. Gravado durante três anos, “na ponte aérea Maceió-Rio”, seu terceiro CD solo tem um título apropriado: Fábula. Não que nele haja animais ou preceitos morais, mas há, sim, o desejo explícito de, ao reunir essas 11 faixas, falar de algo de profundo na condição humana. A primeira faixa, do alagoano Wado, abre também o jogo: “Temporalidade/ Lição de humildade/ Pois em cem anos/ Todos estaremos mortos”.

Cris Braun tem 49 anos. Nasceu em Estrela, no Rio Grande do Sul, passou a infância em Porto Alegre, a juventude entre Maceió e Rio de Janeiro e, agora, atinge a maturidade na capital alagoana, novamente. Lá, apresenta um programa de rádio sobre música clássica. No meio desses caminhos, despontou como vocalista dos Sex Beatles. Entre os seus membros também estava o guitarrista e compositor Alvin L.  Eles gravaram dois CDs incendiários,  Automobília (1994) eMondo passionale (1995), pelo extinto selo RockIt!, do guitarrista Dado Villa-Lobos, da Legião Urbana. Aliás, para entender melhor a cabeça de Cris, cabe mencionar que ela foi amiga – de verdade – de Renato Russo, e era uma de suas “Edileusas” (como Renato chamava carinhosamente algumas de suas amigas).

Não que Cris soe como uma versão feminina de Renato, nada disso. Onde ele erahot, ela é cool. Há em comum, no entanto, uma certa angústia, um certo desejo de tornar esse tal de roquenrol uma coisa menos pueril, menos efêmera. Não à toa, Atemporal foi o nome do segundo disco solo dela, lançado em 2004, pelo selo Psicotrônica, de Beni Borja, ex-baterista do Kid Abelha. O primeiro, de sete anos antes, se chamava Cuidado com pessoas como eu e foi lançado por um fugaz selo que Marina Lima teve dentro da velha PolyGram, o Fullgás. A menção a quem deu guarida a cada disco de Cris é também importante para localizar o círculo de admiração que esta gaúcha loura, baixinha e agitada sempre despertou.

Dentro desse espírito, Fábula reuniu dentro dos estúdios, além do produtor e guitarrista Billy Brandão e o produtor e programador Pedro “Tup” Ivo, músicos como Wado, Celso Fonseca, Sacha Amback, Lanlan e Gustavo Corsi, entre outros. Fora de estúdios, comparecem, por exemplo, Marina & Alvin L, autores da lindíssima Deve ser assim (“O céu deve ser assim/ O céu deve isso á mim”). Embora a pegada de Cris sempre tenha sido roqueira, a sua forma de expressão nunca foi necessariamente roqueira. Ela mesma propõe os rótulos “Música Livre Brasileira” ou “Música Contemporânea Brasileira”.

Bom exemplo de MLB ou MCB, tanto faz, é a faixa E o amor calou, da lavra da própria Cris. Sob uma batida levemente eletrônica, letra e melodia citamCarinhoso, de Pixinguinha: “Quando te vi/ Não sei por que/ Meu coração/ Calou sem querer”. Nada a ver com algum culto xiita à “raiz”, coisa que, para Tom Jobim, significava apenas mandioca. Tudo a ver com a capacidade de jogar guitarra, escaleta, violoncelo e cavaquinho, o diabo, num lado da máquina e sair do outro com uma musicalidade coerente, mesmo quando cheia de detalhes embebidos nas mais diversas fontes. E Fábula é sobre detalhes, detalhes tão pequenos de nós todos.

Por exemplo, ao fundo de Memória da flor, composição dos alagoanos Júnior Almeida e Zé Paulo, enquanto Cris e Celso Fonseca cantam “não era nem uma flor/ era a memória da flor”, o produtor Billy Brandão e Lanlan inventam tal quantidade de detalhes – uquelele, percussão eletrônica, guitarra barítono, lap steel – que cada nova audição transforma a música. Essa, por sinal, é uma das característica das fábulas: a cada vez em que elas são contadas, seu sentido se modifica, inquieto, um olho no eterno, outro no contexto.